Friday, October 31, 2014

Tsunami do graphos

     Começara agora pouco uma belíssima introdução noutro blog por mim criado. Deleitei-me com aquelas palavras, para enfim transigir e aportar nas praias deste recinto hermético. Não é que a ressaca do mar do meu temperamento veio aguda e exigente de um transbordar? A graphophobia se impôs e vi-me fadado a escrever; destrinchar.
     De uma inarticulação feicebuqueana transportei-me ao acolhimento dos meus blogs. Em verdade pouco reconheci neste estado em que me encontro e, ao escrever assim, lembro-me de tempos preciosos no meu Senso. O saudosismo me abraça, mas logo o abandono para me entregar a uma fúria maior.
     É imperativo deixar aqui uma observação sobre minha atual situação. Apercebo-me dos perigos na implicações desta percepção, de que já faz um tempo considerável que não escrevo em méritos grafofóbicos. Mais tempo ainda se conta desde que publiquei algo de semelhante talhe, ou tão digno de releituras e dedicação. Uma risada é o que deveria expressar agora, pois sou esperadamente inseguro da finalização deste texto. Mas o lugar da insegurança pode ser aos poucos tomados, por algo mais incisivo; a revolta.
     O belo motor da produção juvenil, eu diria, e quantos não reconhecerão os lapsos da adolescência, a rebeldia incubada que aflorou em textos sem vírgulas apressada e afobadamente redigidos por mentes imersas em irracionalidade pueril? Ufa! felicitemo-nos! Pois períodos tão extensos foram dignos de parca consideração e agora jazem apagados, mudos.
     Devo reconhecer que as matizes desse estágio ainda estão muito vivas na pintura dos meus textos. Mas muitos desses traços paulatinamente se transmutam. Tornam-se metais mais escuros, ainda que maleáveis (despedem-se aos poucos da rubra incandescência) por minhas mãos. Com efeito similar, a impulsividade é embotada e tem, ao meu ver, seu lugar tomado pela acomodação ou pela resiliência, cabendo a cada indivíduo fazer essa crucial escolha.
     Os anos trazem muito, abocanhar toda a experiência é voluntariar-se ao desespero. Conquanto, o jovem coração anseia por tudo que pode e muitas vezes surpreende os enfadonhos e os desanimados. A escrita, tal como várias atividades indeléveis da minha vida, sempre se manifestará em conjunturas das quais não posso me desvencilhar, senão com os afiados rabiscos que aqui arrisco. Hei de enfrentar a fobia mais uma vez. Porém não aqui.

Friday, June 20, 2014

Graphophobia

     Numa manhã fria - haja vista minha incapacidade de considerar qualquer manhã como diferente de tal - destapo a caneta. Estou sentado numa cadeira de plástico no meio de um pátio de concreto, cerceado por grama e algumas árvores de um lado e do outro pela frente da minha casa. O jardim com a grama ergue-se alguns centímetros acima do pátio e termina num muro alto, fronteira de meu terreno com  a rua. O gramado conta apenas com uma árvore de espessura, sendo que muitos galhos das árvores maiores roçam no muro e outros há tempos o ultrapassaram.
    Quando iniciei meus rabiscos o sol era bloqueado pelo mesmo muro intrometido, mas agora o astro ergue-se alguns quilômetros na abóbada celeste e me banha com dengosa quentura. Esquenta-me indecentemente, esperando fazer-me despir do agasalho que me cobre.
     Sei que atendo a um gracioso pedido ao escrever aqui. Mas mais atendo aos meus próprios anseios, à minha sina.Quero, depois dessa introdução matinal, palestrar sobre o enovelado de pensamentos que, ao meu ver, nunca devem conformar-se como tal. É o testemunho de que faltei com o próprio cuidado de si. Considero isso uma falta grave.
     Eis que apresento-vos o caráter redentor de meu ato de escrita. Transmitir em códigos o que se encontra completamente etéreo, incompreensível em sua forma primal (senão por nós mesmos) é um exercício humanizador. Somos os incomutáveis tradutores daquilo que tomamos como nossos pensamentos. Essa tradução, como qualquer outra, não é fiel em sua totalidade, mas fico abismado ao pensar que conseguimos trazer para fora dessa rede de neurônios algo confeccionado nas estranhas de uma unidade tão complexa do cosmos.
    Faz parte do motim evolutivo do qual falei em meu outro blog. Porém, além dessa maravilhosa corroboração que podemos prestar à singularidade humana, vejo nesse exercício uma vigília importantíssima para a saúde do ser.
     Retomando ao termo "cuidado de si" que citei, cabe colocar uma breve explanação a fim de ajudar na abrangência que o termo pode assumir. 
     Utilizo-o como parte da descrição do meu processo de redação, emprestando a noção helenística desse cuidado de si. Mais especificamente de um momento preciso em que a escrita assume um papel mais importante nessa introspecção. Michel Foucault escreveu sobre as diferenças nas técnicas associadas ao cuidado de si em diferentes tempos históricos: Grécia e Contemporaneidade - me vali dessa interpretação para identificar uma das facetas de minha escrita.
     "Um novo cuidado de si implica uma nova experiência de si. Pode-se ver qual forma toma essa experiência de si nos séculos I e II, nos quais a introspecção se torna cada vez mais explorada. Uma relação se forma entre a escrita e a vigilância. Presta-se atenção às nuanças da vida, aos estados da alma e à leitura, e o ato de escrever intensifica e aprofunda a experiência de si." (1)
     É imperativo transmitir meu alívio, sensação que permeia meu ato de escrita e exponencia-se no fim do mesmo. Creio que possuo duas maneiras de atingir o coito. Esta é a mais delicada, mais intrincada. Mas nunca diria mais nobre, afinal já é tempo de combater a resistência e a perdição associada à sexualidade.
     Esse alívio ao redigir - sensação de dever cumprido - já me preocupou muito. Analiso, porém, qual seria a necessidade de se escrever um texto gigantesco num website praticamente não visitado?  - faço referência ao meu antigo blog - Caso eu queria encarar isso como uma obrigação que assumi, terei de adicionar alguma motivação maior para haja coerência na atitude que eu tomava. 
     Acabei então por encontrar uma razão: A necessidade de reconhecimento. Ela explica a obrigação de se escrever ao estabelecer um compromisso: Mostrar, expor e aguardar a crítica.
     Adiciono, assim, mais um componente da força motriz de minhas redações. Este é o que eu menos aprecio, porém reconheço sua existência e sua importância no que diz respeito à busca pelas críticas. Ao promover a possibilidade de existência das críticas, a ânsia pela avaliação alheia acaba compensando sua superficialidade na medida em que gera um intercâmbio entre o que eu penso e o que tu pensas. Atenho-me a fazer essa consideração e me sinto desejoso de escrever especificamente sobre isso no futuro.
     
O Científico

     A inexorabilidade da adição desse subtítulo me rejubila. Não posso sequer cogitar sua inexistência, tamanha a sua relevância para mim. Isso pode ser verificado em meus escritos antigos. Vários textos tiveram sua gênese na curiosidade sobre algum assunto do mundo natural ou pela própria crítica à ausência desses conhecimentos no meio social.
     Seria uma grande falácia da minha parte apontar a Ciência como uma possibilidade de desvencilhamento de preconceitos e dogmas. Ela não tem essa habilidade, mas possui as ferramentas que tu necessitas para construir teu senso crítico, teu ceticismo. Porém, não digo inverdade alguma quando coloco a Ciência como o meu portal para combater esses preconceitos. Um bom exemplo é  série de raciocínios e evidências que corroboram a Teoria da Evolução, ainda assim, a resistência oferecida é notável em vários meios.
     Em oposição ao que a Ciência é para mim, alguém pode - em sua displicência religiosa e até mesmo científica - concluir que não há motivos para considerar que a quantidade de melanina presente na epiderme de um indivíduo diga algo sobre seu caráter, sua índole e suas faculdades intelectuais. (Neste caso a displicência religiosa faz-se necessária em algumas circunstâncias como, por exemplo, em relação à homossexualidade, abertamente condenada na Bíblia. Ao meu ver, um comensal de alguma religião cristã é, no mínimo, incoerente, caso não partilhe da mesma visão dos textos por eles considerados sagrados.) Ou seja, de maneira nenhuma a ignorância científica é empecilho ao senso crítico, mas essa normalmente tende a desaparecer em presença do último.
     Levanto essa discussão pois me alegro ao identificar a Ciência como minha forma de combater tamanhas irracionalidades, o que é extremamente consonante com o caráter desse texto, no qual elenco os principais constituintes de minhas composições. O pensamento científico - ainda que não em sua forma formal - é um deles.
     Finalizo aqui a parte do texto que diz respeito diretamente a minha proposta de grafia. Enumero os três princípios dos quais se derivam os temas por mim desenvolvidos:
  • Cuidado de si (naquela perspectiva apresentada, ainda que não seja tão precisa)
  • Sujeição à critica
  • Discussão do pensamento científico
O eu

     Esste problema que o eu temho - não te preocupas com essa frase alá Picasso - é simplesmente maravilhoso! Quando percebo que supero alguns em áreas que aprecio, o sentimento provocado, esse afago no ego, é efêmero. Pouco dura. E isso isoladamente não constitui mudança significativa no ser.
     Associado a esse frágil sentimento de superioridade que existe - mas não persiste - está um muito pior. É quando entro em contato com aqueles que dominam conhecimentos por mim almejados com assombrosa profundidade. Confesso ser esse o melhor tipo de comparação que me acomete, mas vê bem, de longe penso que a comparação seja algo positivo em sua totalidade, ao contrário disso, tenho motivos para crer que um dano muito maior e grotesco se sobrepõe a qualquer benefício por ela acarretado.
     Quando disse que é o melhor tipo de comparação que me acomete, comparo-o com um de hedionda estirpe. A primeira que citei é por mim realizada, a segunda é feita por um terceiro, sendo eu um dos objetos da comparação. Mais uma vez penhoro discorrer sobre esse último caso numa oportunidade futura. Não obstante, utilizo a comparação feita por mim para introduzir-te no panorama o qual me insiro atualmente.
   A partir desses dois sentimentos (superioridade e inferioridade) construí uma gigantesca aversão à uma amaldiçoada atitude humana: a acomodação.
     É contra isso que luto. E garanto que caso eu tenha essa postura, não comungarei de paz de espírito para aproveitá-la. Pois é justamente isso que realiza a manutenção da acomodação; é volver os olhos para a maresia de um horizonte distante e ignorar a tempestade que atrás se aproxima. De fato sou acossado por uma vontade impetuosa que não me permite procrastinar sem censura, não me permite a passividade. E com isso, construo o meu atual contexto.
     Passei por momentos assustadores, induzidos por correntes de pensamentos que articulei a respeito dos temas que mais me cativam. Prossigo com essa postura, apesar de que ao projetar minha experiência nesse mundo numa atitude de indiferença intelectual avalio-a como menos traumática e turbulenta. Não posso negar o que traz a minha individualidade. Pensar, pensar e pensar. 
     A solidão se faz presente, mas também hei de encontrá-la em ti e assim poderemos confortar um ao outro.
     Há tempos não publico algo em meu antigo blog, agora não mais o farei, salvo um texto de despedida e explicação. O caso é que a relação que desenvolvi com a escrita nesses últimos tempos foi realmente de uma graphophobia. Pois eu aceito, ó arte das palavras, o teu desafio. Prova disso são as frases que me pego tecendo neste momento.
     Aceito o desafio, mas nunca poderei abandonar esses sustentáculos de minha escrita e com eles pretendo deixar aqui uma nova fase de minha vida. Porque afinal,



pretendo fazer dessa minha estada a ponte para a confraternização humana mais amorosa que existe, aquela em que o medos reconhecidos e compartilhados são finalmente vencidos. Quero, mais que tudo, contribuir como puder com as confusões e fragilidades mentais do ser humano. Para isso preciso pensar, preciso escrever e por conseguinte nenhuma fobia há de me impedir.
     




(1) FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris: Gallimard, 1994, Vol. IV, por Karla Neves e wanderson flor do nascimento.